Na passagem do tempo natalício, em que o bacalhau foi rei na gastronomia da quadra, ainda é época desse fiel amigo da mesa portuguesa até aos Reis; havendo, pelo menos em muitas terras no norte do país, a tradição de se lhe voltar a tomar o paladar na noite chamada dos Reis, mais própria dos cantares anuais das Reizadas. Daí, por outras vias, calhe bem, por analogia extensiva, dar aqui uma entoação a memorizar um tal Leopoldo “Bacalhau”… nome que, podendo não dizer muito às gerações actuais, merece referência, enquanto é tempo.
Mas já lá vamos. Enquanto, para um antecipado e devido reconhecimento, se intercalam imagens desse antigo futebolista. Como haverá muitos outros, mais, a merecerem idêntico tratamento memorial.
Indo por partes: Derivado aos efeitos da instabilidade deste tempo de inverno, um princípio de estado gripal, ou algo do género, originou um breve estágio acamado que alongou período de acalmia nestas lides, no começo de novo ano. Somando aos cardio-antecedentes (inventando esta forma de dizer, só para evitar mais delongas), também a temporária falta de apetite pela escrita, no sentido de divulgação do acervo angariado, chegou para até ser por aqui colocada hipótese de uma pausa mais vasta, na dúvida se valerá mesmo o esforço, apesar de tudo. Mas, para já, continua-se com isto, até onde der.
Voltando então a dar-se publicamente algo desta recolha de dados, o que desta vez aqui se traz no alforge puxa para vários sentidos, dando agora, no caso, para recordar algo relacionado com actualidade próxima.
Mas antes disso, ainda também, a propósito, aflora um à parte duma curiosidade acrescida, devendo referir que isto do alforge não tem nada a ver com um dos livros que há anos escrevemos sobre a história da nossa região: “Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras”… Visto, então, ter havido pessoas desconhecedoras do significado do termo Alfoz que, para não darem parte de fracas, assimilaram outro muito diferente… do que eram as circunscrições administrativas, qual termo identificativo em história local…
Com uma carga assim no bornal, de nível nacional, trazemos para repartir desta feita uma memorieta mais ligeira, atendendo à proximidade do clássico de futebol que se aproxima para ser disputado em Lisboa. E perante a onda que volta a abater-se sobre a comunicação social, com a mira de engrandecimento dos clubes lisboetas, como é costume em Portugal.
- Uma jogada com Leopoldo presente na equipa principal do F. C. Porto, em 1971/72, na estreia de Flávio: fase do encontro vitorioso contra o Union do Chile.
Ora, enquanto por Lisboa as televisões, rádios e jornais não têm pejo em fazer quase o diário do internamento hospitalar do Eusébio, procurando endeusar alguém só porque representou e representa ainda os tempos das vacas gordas do clube do regime – o que leva a pensar que virá aí outro luto nacional quando falecer, como foi com o Feher, comparativamente ao que (não) aconteceu quando desapareceram antigos valores do F. C. Porto, por exemplo… e a mesma comunicação social branqueia os também recentes favores de arbitragem ao Benfica… dizíamos, aproxima-se o Sporting-Porto, jogo importante afinal. E nunca se sabe o que pode estar a ser maquinado, nos bastidores dos poderes do desporto português, dentro de tais quadros e do que é useiro e vezeiro no mundo luso…
Isto leva a, nestas ocasiões, vir sempre à memória tantos e tantos casos históricos acontecidos, com influência em resultados de jogos e campeonatos. Nesse prisma, embora para não incidir num caso dos prélios com os verdes alfacinhas, trazemos à tona um episódio praticamente esquecido, e que faz emergir também um nome pouco recordado. Passou-se em 1968/69, ao tempo da primeira passagem de Pedroto pelo F. C. Porto como treinador principal e da entrada na mesma equipa portista do defesa Leopoldo.
Leopoldo, de nome completo Leopoldo José Nogueira Amorim, era então e ficou conhecido por Leopoldo Bacalhau, graças a tal epíteto curioso, sendo natural da própria cidade do Porto, onde, segundo dados conhecidos, nasceu a 19 de Novembro de 1948. Como futebolista, oriundo das camadas jovens do Progresso, teve ainda formação no F. C. Porto, havendo passado a integrar o plantel sénior em 1968, em cujo decurso da época assumiu posição efectiva de defesa esquerdo, através de particularidades que não se esquecem facilmente.

Pois, quem é e tem ideia desses tempos (quando o F. C. Porto não tinha possibilidades de vencer campeonatos e taças, que eram por norma distribuídos por anos seguidos, em mãos cheias, ao clube do regime e, de permeio, deixavam os leões rugir um ano ou outro de vez em quando), Pedroto conseguira em 1968 meter uma lança em África ao ganhar a Taça de Portugal. Na época seguinte, apesar de obscuras ocorrências, mesmo assim Pedroto estava a conseguir gerir a equipa portista, a pontos de estar colocada no topo da classificação, na chegada da Primavera, o que começou a dar entusiasmo acrescido aos adeptos fiéis, numa onda de esperança em toda a gente que se revia no simbolismo Portista. A equipa do FCP nesse ano estava forte, com Américo sempre em grande plano na baliza, numa retaguarda reforçada com Atraca, Valdemar, Rolando, Sucena, Bernardo, mais um meio campo onde pontificava Pavão, Eduardo Gomes, enquanto Custódio Pinto era pau para toda a obra e no ataque se destacavam Djalma, Lisboa e Nóbrega, entre outros. Havendo de reserva alguns reforços em espera, como Rui, Almeida, Mário, Fernando e Francisco Baptista, por exemplo, e jovens como Alberto, Luís Pereira, Victor Gomes, Acácio, Chico Gordo e Malagueta. Deu-se então o caso de Pedroto ter dado início aos estágios antecedentes aos jogos, o que colidia com a vida de alguns jogadores que tinham outras ocupações, nesses tempos. Pedroto então suspendeu e retirou da equipa Américo, Custódio Pinto, Eduardo Gomes e Alberto. E pôs a jogar Rui, Leopoldo, Vitor Gomes e Chico Gordo, ao lado dos consagrados. Factos que nem vale a pena recordar demasiado, ou pelo menos aprofundar aqui e agora (por quem como adepto sentiu esse tiro nos pés, que pesou sobremaneira na perda desse campeonato). Apenas vem ao caso porque, com isso, apareceu Leopoldo, então jovem lançado por Pedroto na primeira equipa e logo como capitão, num jogo importante, no campo da Cuf, do Barreiro. Aí, uma vitória saborosa deu asas ao sonho, que passados dias se esfumou, primeiro com um desaire diante da Académica, num daqueles jogos totalmente contra natura… e depois um empate que não podia aparecer mas aconteceu, perante o União de Tomar, com o golo da igualdade a surgir quase no expirar do encontro (aos 36 minutos da 2ª parte), numa inventona autêntica…

- Uma faceta de Leopoldo como "capitão", durante digressão a África no período da Páscoa de 1969.
À época, porque a envolvência dos acontecimentos colocava toda a gente contra a estrutura interna, o caso passou quase como mera fatalidade… mas, foi esquisito. Por isso não pode continuar no olvido. Há tempos deparou-se uma prova, ao autor destas linhas, jovem que nessa era viu fugir esse título nacional… E, como Leopoldo, sem culpa, obviamente, esteve envolvido, então como vítima, damos fé da apreciação que – pasme-se – o jornal A Bola deu, procurando encobrir o sol com uma peneira... e acabou por registar.
Eis essa pérola:
« 2-2, aos 36 m., por Leitão, na transformação de uma grande penalidade. Na área, ao perseguir a bola, Leopoldo tropeçou, caiu e, na queda, exactamente para o lado oposto ao da bancada central, deve ter tocado com a mão no esférico. De frente, o juiz de linha, em posição para avaliar o lance, assinalou peremptoriamente a falta, indicando a grande penalidade que Leitão apontou com força e de maneira a fazer tabelar a bola na face inferior da barra, de onde seguiu para as malhas.»
Não é lapso… escreveram mesmo: «… deve ter tocado com a mão no esférico…»! O que diz tudo... e mais alguma coisa!
Basta acrescentar, em epílogo, que o F. C. Porto perdeu esse campeonato pela diferença de dois pontos… e depois teve de se esperar mais uns anos, até 1978, para ser alcançado enfim o título nacional tão ansiado!
- Leopoldo na equipa que, em Setembro de 1969, esteve presente no jogo de despedida da carreira de Américo.
Posto isto, resta rematar que, após essa época, Leopoldo permaneceu no lote principal do F. C. Porto até 1974/75, rumando de seguida ao Varzim e posteriormente ao Vitória de Guimarães. Ficando com um percurso digno na sua ligação ao futebol, mas também ligado involuntariamente a uma das histórias que sempre têm de ser contadas…!
- Leopoldo, em 1971, numa formação do F. C. Porto constituída por:
Em cima (da esq. p/ d.ta): Rolando, Pavão, Valdemar, Leopoldo, Gualter e Armando;
Em baixo (da esq. p/ d.ta): Seninho, Bené, Flávio, Abel e Ricardo.
Obs.: Porque não faz mal rever "matéria dada”, recorde-se também alguns casos de jogos com o Sporting, através de anterior artigo sobre “
Vislumbre histórico dos jogos…”
© Armando Pinto
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